Para onde estamos indo mesmo?

By outubro 10, 2019Desenvolvimento Humano

 

Esse texto pode conter ideias subversivas. Passe desta linha por sua conta e risco.

Você tem precisado acelerar seu ritmo de estudo e trabalho? Equipamentos e aplicativos que não existiam há pouco tempo invadiram seu cotidiano? Se a sua resposta é sim, eu te convido a fazer essa reflexão junto comigo.

A viagem começou numa sala de embarque.

Recentemente, eu tinha um voo marcado logo pela manhã. Então acordei, fiz minha meditação matinal e em seguida fui para o aeroporto. Chegando à sala de embarque , olhei para todas aquelas pessoas de uma forma um pouco diferente naquele dia . Quase todas estavam fazendo alguma coisa numa tela de tablet ou celular. O pensamento que veio foi: “Os caras conseguiram!” Criaram uma solução tecnológica tão extraordinária e que resolve tantos dos nossos ” problemas ” , que nos entregamos totalmente à nossas maravilhosas tecnologias móveis .

O que diria uma especialista?

Lá fui eu então buscar alguns dados e encontrei uma pesquisa da Dra. Nancy Etcoff, psicóloga pesquisadora da universidade de Harvard. Ela realizou um amplo estudo em parceria com o instituto francês IPSUS. Esse estudo aponta dados alarmantes. Veja alguns deles:

  • 36% das pessoas pesquisadas (o que inclui brasileiros) prioriza o uso de smartphones em vez do convívio familiar.
  • Metade dos participantes dizem verificar o aparelho mais vezes do que gostaria.
  • Um terço acredita que passa tempo demais no smartphone.
  • Três em cada dez concordam que, quando não estão usando o celular, “estão pensando em usá-lo ou planejando o próximo uso do dispositivo”.

E você? Se encaixa em alguma dessas estatísticas? Ou conhece alguém que se encaixa?

Antes que você confunda a intenção aqui, a ideia não é ir contra as evoluções tecnológicas.  Esse questionamento é para as pessoas. Qual é o nosso nível de consciência nessa nova realidade que criamos? Quais as bases e consequências de viver uma vida cada vez mais conectada, cada vez mais virtual?

Quem mais ganha com isso?

Temos visto indústrias emergentes performando lucros extraordinários por trás dessa nova cultura, não é mesmo? Uma narrativa inédita do que é produtividade, sucesso e pertencimento vem contagiando a todos exponencialmente.

A mesma pesquisa que citei acima diz que 49% dos jovens da geração Z no Brasil considera o smartphone seu melhor amigo. Sim, você leu certo, 49%!

Mais uma vez, a intenção do texto também não é um posicionamento contra empresas lucrativas, muito menos contra a evolução humana . Mas será que estamos lidando bem com tudo isso? Será que não devemos questionar um pouco quais culturas (e forjadas por quem) estão ditando essa nova ordem cultural que está invadindo nossas vidas? Que novos padrões de comportamento estamos cultivando?

Chamada para o voo

Uma voz anunciou no saguão a chamada para o meu voo. Estava na hora de embarcar. Sim, eu tinha me espantado com todas aquelas pessoas nos seus mobiles, mas eu sentei e fiz a mesma coisa. “Nossa!”, pensei comigo. Caminhando para o embarque me perguntei se de alguma forma estamos adiando as perguntas principais indefinidamente enquanto não terminamos de checar nossas timelines e nossas inboxes. Mas peraí, será que elas têm fim? Após anos utilizando-as, ainda que sob algumas regras e limites, eu penso que não, elas não têm fim. Ou seja, se tiver algo adiado para depois delas, talvez isso nunca chegue a receber a nossa atenção.

Qual seria então um movimento de consciência diante desse cenário cheio de ameaças, mas também de oportunidades. Claro, não podemos negar diversos benefícios gerados pelas mesmas tecnologias, como o acesso à informação e a democratização da comunicação, só para citar duas.

O que organizações e líderes podem fazer a respeito?

Vou citar dois exemplos interessantes para inspirar. Um da própria Motorola, primeira fabricante de telefones celulares do mundo, que lançou um programa chamado Phone Life Balance, que incentiva o uso inteligente e equilibrado do smartphone.

Outro movimento superbacana é o da Digitial Detox, uma ONG que tem um slogan: “We are a slow-down not a start-up”. Seu propósito é redefinir o que significa estar conectad@.

Ou seja, a ideia não é promover uma parada na evolução tecnológica, mas sim que a coloquemos a favor da evolução humana e não de um possível adoecimento da espécie.

Certamente há muitas outras coisas que organizações e líderes podem fazer. A primeira delas poderia ser o convite de um autor e fundador de um dos mais influentes institutos de liderança do próprio Vale do Silício, Chade-Meng Tan, que diz: “Busque dentro de você.”

Meng sugere que a nossa própria produtividade, qualidade de liderança e bem-estar ficam comprometidos se não pararmos para respirar, ou de pausar antes de reagir. Ou seja, ele nos ensina que devemos treinar a própria mente para sermos menos compulsivos e mais conscientes. Caso contrário, a nossa própria desejada produtividade ficará comprometida pelos nossos hábitos, inclusive os digitais (aqui inserção minha).

Entrando em modo avião…

Meu voo estava pronto para partir, a comissária de bordo anunciou “portas fechadas” e pediu para que colocássemos nossos dispositivos em modo avião. Eu achei o que aconteceu então muito simbólico. Parece que, pelo tempo de um voo, uma certa paz permeou aquelas pessoas que, junto comigo, estavam isoladas do mundo externo pela carcaça de um avião.

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Alguns estudos sobre saúde mental e consciência trazem sugestões interessantes que podem nos ajudar a aumentar o uso consciente dos nossos equipamentos eletrônicos. Aqui vão algumas delas:

  • Dormir com o smartphone desligado.
  • Permitir um intervalo com eletrônicos desligados antes de dormir e depois de acordar.
  • Iniciar o dia com uma prática de meditação (claro que eu não ia deixar essa de fora rs).
  • Deixar seu celular de lado enquanto se alimenta e procurar sentir o sabor e a textura do alimento enquanto mastiga. Se tiver companhia na refeição, que tal aproveitar o tempo no mundo real?
  • Fazer pequenos intervalos durante um dia de trabalho para acalmar a mente e melhorar sua capacidade de se manter com consciência e foco. Mesmo que sejam de apenas um minuto.
  • Tirar um dia de vez em quando para ficar totalmente offline. Bom momento para revisitar suas decisões de vida, seus valores e objetivos.
  • Desligar notificações, programar os momentos do dia em que você vai dar retornos das mensagens. Perceba que quem define a maior parte das urgências é você mesmo.

Claro que essa lista não pretende ser completa, apenas mostrar que podemos dar grandes passos de consciência com pequenas atitudes diárias. Talvez você já tenha ouvido falar de todas elas, mas a pergunta é: Você está colocando-as em prática?

Hora do desembarque

Terminou o voo. Interessante que, ao anunciar que as pessoas podiam ficar online novamente, uma onda sonora de notificações chegando invadiu o espaço. Reconectamos de novo.

E você que leu essa reflexão até aqui, antes de desembarcarmos e seguirmos nossas vidas, enquanto ainda estamos juntos aguardando a porta abrir, segue meu convite:

Treinemos nossas mentes para estarmos cada vez mais conscientes nesse admirável mundo que estamos criando.

Quer dar um primeiro passo? Escolha pelo menos uma das sugestões da lista acima e implemente a partir de hoje. É sério, eu te convido a ir na lista agora, escolher seu novo hábito e começar hoje.

Você tem outras dicas? Comente aqui o que você faz para se manter consciente nesse mundo cada vez mais digital. Contribua com suas dicas e questionamentos também.

Até a próxima!

Daniel Spinelli

Palestrantes e Facilitador de workshops. Acredito que a ampliação da consciência tem o poder de transformar pessoas e organizações.

P.S.: Que tal refletir sobre esse texto ouvindo uma música? Se quiser uma sugestão:

https://open.spotify.com/track/3xuNzrasYXvVTf60xkEyxm?si=g_pVyhjZT_-eiRrNH2gnxw

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