Uma reflexão sobre a morte

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Poucos sabem, mas esse é um assunto em que a vida me proporcionou certa experiência. Tanta gente próxima tendo perdas significativas nas últimas semanas que senti um chamado de contribuir com essa mensagem. As palavras que seguem tentam expressar uma forma de olhar para o que chamamos de morte. Essa perspectiva para mim é o barco que tem me conduzido com segurança por águas turbulentas, onde vários perigos psicológicos habitam. Gostaria que todos ficassem bem, mesmo diante de um grande desafio como o adoecimento ou, até mesmo, a perda de uma pessoa amada.

Esse texto começa assim…

Desta minha vida já partiram os quatro avós, meu pai, minha mãe, seis tios queridos, um dos meus melhores amigos, um grande mentor, entre outras perdas significativas que eu também poderia chamar de mortes. Quando acontece de eu almoçar sozinho num domingo ou numa data comemorativa, é natural lembrar das conversas, abraços e risadas daqueles tempos. É quase como se eu vivesse os dois tempos simultaneamente. Eu ali, com um prato na minha frente, e todas aquelas pessoas amadas em volta, que surgem da minha memória como se fosse um sonho real. Normalmente rio com algumas dessas lembranças e esse almoço dificilmente termina sem lágrimas nos olhos. Sim, eu vivo a dor das perdas, sei que muitas coisas da vida podem perder sentido. Sei que a tristeza pode ganhar um grande espaço na mente, no coração, nos sonhos e nas noites de Natal. Mas a mensagem que vim deixar não é para lhe deixar para baixo, queria contar para quem está diante de alguma situação parecida que, após tantos anos convivendo com essas partidas, eu sei também que é possível não se entregar. É possível até mesmo dar uma visão positiva para os fins de ciclos e partidas. Para me ajudar nesse processo, tem quatro pensamentos que me ajudam muito. Refletir frequentemente sobre eles tem me ajudado a resgatar minha sanidade e a continuar minha caminhada apreciando a vida. Nunca me imaginei contando eles num texto, mas de repente achei que eles podem ajudar mais pessoas, assim como tem me ajudado. São eles:

  1. O primeiro pensamento é a compreensão de que nossa vida é muito preciosa, e desistir dela ou torná-la sombria são apenas opções, das piores possíveis. Podemos então, continuamente, trocar a dor das ausências pelas inspirações das pessoas lembradas e pelo amor das lembranças. Se ampliarmos nosso olhar, respirarmos fundo erguendo a cabeça, veremos que sempre haverá belezas para compormos nosso interior.
  2. O segundo pensamento é a sabedoria de que tudo, sem exceção, é transitório, impermanente. A gente adoraria fixar as coisas, brincar de Deus, mas no fundo, em uma quantidade de tempo, todos os seres que estão vivos hoje não estarão mais vivos, pelo menos não da forma como estão agora. No início, essa visão me deixava triste; com o tempo, a gente se acostuma a encarar essa realidade, assim como os olhos se acostumam com a luz. Após um tempo, notamos que compreender a morte como um processo natural nos ajuda a apreciar mais a vida.
  3. O terceiro é que cada pessoa que partiu deixou muitas marcas, nós podemos escolher com amorosidade o que queremos cultivar em nossa mente. Intencionalmente reverenciar suas melhores qualidades, sentir gratidão pelo que essa pessoa contribuiu conosco e, quem sabe até homenagear essa pessoa cultivando uma de suas qualidades. Minha mãe, por exemplo, era uma educadora, então trago esse amor pelo desenvolvimento de pessoas para meus trabalhos. Posso ser um disseminador dos atributos daqueles que me tocaram. Dessa forma eles estarão vivos dentro de mim.
  4. O quarto e último pensamento é de que o sofrimento faz parte. Então está tudo bem não sermos perfeitos, está tudo bem quando erramos com as pessoas, está tudo bem quando elas erraram conosco. Afinal, a realidade é que cada um está (ou estava) diante de seus próprios sofrimentos. A compreensão disso nos ajudará a nos perdoarmos, perdoar os outros e poder assim abandonar cargas negativas desnecessárias (caso existam). Já sofri muito de remorso, já sofri muito por ficar julgando, hoje, ao perceber esses venenos mentais, redireciono meus pensamentos para o amor e a compaixão.

Solidarizo-me aqui com todos aqueles que estão se deparando com perdas importantes neste momento. Que em cada processo de luto, que em cada partida, possa haver amor e serenidade. Se você não está passando por nenhuma perda, note que você pode fazer os quatro pensamentos mentalizando qualquer pessoa, independentemente de onde ela esteja agora.

Confesso que aqui rolam lágrimas secretas cada vez que algum amigo sofre uma perda importante. Acabo lembrando das minhas perdas, dos meus amados que não posso abraçar mais. A seguir, retomo esses quatro pensamentos, respiro fundo, “rego alguma planta com minhas lágrimas” e sigo em frente. É claro que sinto a falta de muitas flores no caminho, não ignoro isso, mas percebo que muitas outras estão ali. A vida é incrivelmente crua, natural e magnífica. Aprendi que, em última instância, vida e morte são a mesma coisa, e a compreensão disso nos faz evoluir pessoal e espiritualmente. Aqui reside um desejo profundo de que cada um de nós possa atravessar nossos vazios com sabedoria e segurança.

Que esse texto aqueça seu coração, encha seu pulmão de ar e te lembre que a homenagem mais linda de todas ainda é seguir em frente e fazer cada vida valer a pena.

Com amor,

Daniel Spinelli – Trabalhando pela ampliação da consciência humana.

P.S. – Os quatro pensamentos foram inspirados numa leitura que fiz há alguns anos de um ser excepcional chamado Chagdud Tulku Rinpoche.

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