[Perfil Brasil] A atenção virou moeda. E alguém está ficando rico com a sua

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Existe uma disputa acontecendo neste exato momento. Ela não aparece nos noticiários, não gera manchetes e raramente entra nas pautas estratégicas das organizações. Mas seus efeitos estão em todo lugar: nas reuniões que não chegam a lugar nenhum, nas conversas que ficam na superfície, nas decisões que deveriam ser mais profundas do que são.

A disputa é pela sua atenção.

Estive recentemente no CONCARH, o Congresso Catarinense de Recursos Humanos, onde a pergunta central do evento era: será que a próxima revolução será humana? Saí de lá com essa questão ecoando de um jeito diferente do que entrou.

Passamos anos discutindo o avanço da inteligência artificial. Produtividade, automação, velocidade. São conversas importantes. Mas existe uma pergunta paralela que quase ninguém está fazendo com a seriedade que ela merece: o que está acontecendo com a nossa capacidade humana enquanto tudo isso avança?

Uma das falas que mais me provocou foi a de Gabriela Prioli. Ela descreveu as camadas de proteção que precisou construir para preservar um hábito simples: ler. Não porque leitura seja difícil. Mas porque o ambiente digital foi desenhado para tornar qualquer forma de atenção sustentada cada vez mais improvável.

Isso não é acidente. É modelo de negócio.

As plataformas que usamos diariamente competem por cada minuto da nossa concentração. Quanto mais fragmentada a atenção, mais tempo passamos rolando, clicando, consumindo. E quanto mais tempo passamos fazendo isso, menos tempo e capacidade nos restam para pensar com profundidade, escutar com presença e construir conexões humanas que de fato importam.

O problema é que tratamos isso como uma questão individual. Uma falha de disciplina. Um vício pessoal a ser corrigido com força de vontade.

Mas quando olhamos para o que está acontecendo nas organizações, a dimensão coletiva fica evidente.

Líderes com atenção fragmentada tomam decisões mais superficiais. Equipes que perderam a capacidade de presença têm conversas mais rasas. Ambientes onde a concentração é escassa produzem colaboração de menor qualidade. A produtividade que tanto se busca com novas ferramentas vai sendo corroída por dentro, silenciosamente, pela mesma tecnologia que prometia ampliar capacidade.

Existe uma ironia cruel nisso. Nunca tivemos acesso a tantas ferramentas de comunicação. E nunca nos sentimos tão pouco escutados.

Porque escuta real exige atenção real. Conexão humana genuína exige presença. E presença virou um recurso escasso num mundo que foi desenhado para nos manter perpétuos e dispersos.

Como pesquisador e praticante do tema liderança consciente, tenho observado que as capacidades que estão se tornando mais raras são exatamente as que estão se tornando mais valiosas: sustentar atenção, pensar com profundidade, escutar sem interromper mentalmente, construir relações com qualidade real.

A questão não é resistir à tecnologia. É perceber o que estamos deixando se atrofiar enquanto a adotamos sem critério.

Se a próxima revolução vai ser humana, ela vai precisar começar por uma escolha que parece pequena mas é enorme: recuperar o controle da própria atenção.

Porque tudo que construímos de relevante, nas organizações, nas relações e na sociedade, começa com a capacidade de estar verdadeiramente presente.

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Publicado originalmente em: https://brasil.perfil.com/educacao/a-atencao-virou-moeda-e-alguem-esta-ficando-rico-com-a-sua.phtml

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