Por que não vou torcer para a seleção nessa Copa?

ㅤ

Quando um país transforma sua paixão popular em uma máquina de vício, algo civilizacional está acontecendo.

Peço licença aos fãs para provocar uma pausa no frisson que o futebol normalmente causa nos brasileiros, e que já causou muitas vezes em mim, para que você faça essa ponderação aqui junto comigo.

Como pesquisador e estudioso do tema liderança consciente, o método que publiquei e que hoje começa a ganhar o mundo é baseado em quatro dimensões. A quarta dimensão é a do legado que um líder deixa para pessoas, organizações e sociedade.

Tendo dedicado os últimos anos da minha vida à disseminação dessa metodologia, percebo cada vez com mais clareza quando as narrativas nas mídias, os comerciais e os merchandisings carregam intenções ocultas, nem sempre louváveis.

O que tenho alertado líderes por onde passo é que, numa visão mais consciente, mais importante do que as aparências, é o impacto real deixado nessas três camadas: pessoas, organizações e sociedade.

E hoje o futebol virou algo muito além de um esporte. Talvez o futebol tenha deixado de ser o produto. Talvez tenha virado apenas uma embalagem. 

Hoje ele virou uma tela para ser projetado um verdadeiro filme de terror: um dos maiores problemas sociais que o Brasil já viu, as bets.

O problema não é apenas apostar. O problema é normalizar uma economia construída sobre compulsão, ansiedade e destruição silenciosa de famílias. Um mecanismo altamente viciante que agora utiliza o futebol, seus ídolos e a paixão popular como plataforma de expansão.

O esporte que já representou superação, disciplina, inspiração e orgulho coletivo agora serve, em muitos casos, como veículo de disseminação de um mercado que cresce proporcionalmente ao adoecimento emocional e financeiro das pessoas.

Países com maior responsabilidade social já começaram a limitar fortemente esse mercado. O Brasil, apesar de uma regulamentação recente extremamente frágil, segue tratando o problema de forma superficial.

Estamos prestes a assistir mais uma Copa, em um ecossistema esportivo cada vez mais financiado, patrocinado e promovido pela indústria das apostas.

Talvez tivéssemos aqui uma oportunidade de nos unirmos novamente em torno da mesma camisa. Justamente em um tempo em que precisamos tanto disso. Mas, dessa vez, me perdoem meus compatriotas, eu não consigo. Porque o que estou vendo é aterrorizante.

Aspiro que esse texto sirva como um alerta.

Não apenas para refletirmos sobre o que realmente estamos alimentando com a nossa atenção, mas principalmente para começarmos a enxergar os legados e as intenções reais por trás das narrativas que consumimos diariamente.

E deixo aqui uma provocação final para líderes. O resultado financeiro de curto prazo não pode estar acima do rastro que a sua liderança deixa.

Pare por um instante e faça estas perguntas:

  • A vida das pessoas melhorou ou piorou depois da sua passagem?
  • As organizações ficaram mais ou menos saudáveis?
  • E a sociedade, no fim das contas, melhorou ou piorou depois que você passou por ela?

ㅤ

Me desculpem, mas dessa vez eu não conseguirei torcer para a nossa seleção.

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dezenove − 3 =

Categorias

Mais Posts